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Consultório n’ovo - Carolina Machado de Godoy

  • 8 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 14 de set. de 2025


Havia me mudado recentemente para um novo consultório, meu pequeno espaço ateliê. O consultório do psicanalista, para mim, é isso mesmo, uma espécie de ateliê. Tem um silêncio próprio, uma temperatura própria, um ritmo, som e luz. Ambiente que a gente vai moldando aos poucos, e ficando com o jeito de um lugar que te permite fluir melhor nos seus pensamentos, pegá-los nas mãos, morar com eles.

Acontece que antes de eu chegar esse lugar já tinha história. E como história não se apaga assim sem alguma violência, o casal de pombinhas que morava na sacada insistiu em ficar. Travamos uma certa luta por espaço, eu e eles. Eu queria silêncio, eles arrulhavam na janela. Faziam suas danças de acasalamento como se eu não estivesse ali, do outro lado, assistindo tudo. É interessante a natureza das coisas, ela resiste apesar de nós.

Toda manhã punha-me a limpar a bagunça dos pombos da sacada, a sujeira que deixavam no chão e no parapeito. Palavra engraçada: para peito. Pára peito. Pára peito!

Bom, se eles insistiam em ficar, eu insistia a não os querer ali. Fui procurar na internet: maneiras não cruéis de espantar pombos. Eu tinha uma esperança de parar a vida sem crueldade. Mas esse sem jeito com a agressividade de cortar maus pela raiz foi mais forte e acabou que os pombos e sua insistência venceram minha lentidão, e numa certa segunda feira, quando cheguei, havia dois ovos pequenos, quase translúcidos, delicados botados no vaso.

Como pode esse rato de asas botar ovinhos tão bonitinhos... pensei por alguns segundos no que fazer com aquilo. Até porque, as alternativas não eram muitas. Ou eu de vez encerrava aquela história, ou provavelmente nasceriam pombinhas, que pequenas poderiam até me fazer esquecer do horror que tenho delas. Que pequenas, sendo alimentadas pela mãe que iria e viria, me fariam achar aceitável aquela sujeira toda, os possíveis piolhos de pombas e arrulhares infinitos. Pequenas, me fariam lembrar que essa limpeza toda que a gente quer da sacada - da vista - da vida, é impossível.

Sem me alongar demais, peguei um saquinho plástico, espantei a pomba mãe, e com toda delicadeza possível peguei os ovinhos. Fazer o que agora? Jogar lá embaixo na rua? Jogar no lixo? Eu depositei no lixo... quase que com uma esperança de que fossem dar um jeito de sair de lá.

A mãe veio uma ou duas vezes checar o vaso. Não estavam mesmo ali seus ovinhos recém botados. Subiu no parapeito, chamou o pombo pai. Olharam juntos o vaso. Subiram no parapeito... voaram. V-O-A-R-A-M. Assim, livres.

Fiquei com inveja. Queria eu poder voar assim. Queria poder voar para longe sem me importar muito com as dores das perdas: que simples é a pomba, que se afeta tão pouco. Segue sua vida, e vai ser “selvagem entre árvores e esquecimentos” como diria Fernando Pessoa. Em um segundo não se lembram mais de seus dois ovos. Eu, no entanto, continuo lembrando. Dos ovos dela, e dos meus, cada vez que saio de perto. Ser humano é não dar para parar peito. Está sempre lá a emoção, ainda que possamos não dar ouvidos, nem corpo, nem voz a ela. Talvez a gente faça muito isso mesmo, a gente tenta limpar todo dia a bagunça da vida existindo, para não conviver com o caos infinito de dentro.

 
 
 

1 comentário


Barbara Amadeu
Barbara Amadeu
13 de set. de 2025

Li e reli. Voltei pra registrar que transbordei de emoções nesta leitura. Leve, delicada e profunda ao mesmo tempo.

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